domingo, 26 de outubro de 2014

Folha e Outono





1 comentário:

  1. Enquanto minha estação do ano teimava em me mostrar a Primavera, eu tentava seguir o Poema “Folha e Outono” e me aproximar de toda a sensação que, além da temperatura, a Poesia me deixava experimentar. E, por dois dias inteiros meu clima voltou a ser Outono num tempo em que as folhas tinham a textura de um tapete macio. Perdi prazos, tive náuseas e atrasei-me um dia me convalescendo, desidratada, pois estava na estação trocada, mas, não sei como, perfeitamente encaixada dentro daquele clima.

    Quando me ocorria de iniciar meu comentário, sabia que a ideia principal seria dar ênfase à estação do ano enquanto pão, ou alimento, como ponto de encontro, e mesmo desencontros. Mas não conseguia encontrar a chave para abrir minhas colocações. Faltava a introdução, embora todo o conteúdo estivesse aqui, bem ao alcance dos meus dedos. Ou da minha janela. Como poderia escrever sobre a renovação da vida, ou sobre a promessa de renascimento pela composição das tonalidades das folhas, depois de acreditar que as janelas que deveriam se abrir no decorrer de um comentário poderiam, e deveriam, ser abertas também na dimensão exata daquele corpo que havia vivenciado uma experiência única em toda a sua vida? O meu corpo!

    O Poema me mostrava cinquenta e três anos de passado, um infinito de futuro imprevisível e a paisagem de um presente visivelmente sensível à criação de versos que ninguém, nunca, nunca, tão d’alma os criaria, senão d’Alma.

    E aberta a porta, ou a janela, não poderia recusar o convite, ou a imposição, de entrar naquele espaço e me atrever a comentar. O mistério, juntamente com a inépcia, começava por se desfazer, e a Poesia d’Alma parecia cumprir, finalmente, o ofício de que só existe para provocar o leitor e, obrigando-o a ultrapassar seus limites, vencer os obstáculos: levar e elevar. Percorrer aquela paisagem e encontrar uma saída, ou uma alternativa, era agora um dever. O meu dever de leitora e admiradora da obra de António Pina.

    E assim, não demorei muito para encontrar uma superfície que pudesse silenciar minha inquietação.

    Dois gêneros resguardam o aspecto poético da metáfora e do diálogo, e se complementam. O vento que tudo varre e deixa a vida, às vezes, tão vazia, ou tão cheia de nada, também carrega em si uma potência transformadora: o testemunho da Poesia. O versos separam a linguagem comum da poética, por não serem compatíveis à realidade da despedida na vida utilitária. Uma questão de leitura, ou releitura.

    Um novo mundo se abre à paisagem das janelas e um novo caminho, muito mais abrangente, converge à semelhança da estação que se vai e a outra, que se aproxima. As folhas, indiferentes às ilusões da vida, alimentam a terra que as acolhem. E, uma por uma, muito mais que cenário, ou chão poético, são protagonistas da natureza dos gêneros. E de toda a distância que existe, sem perder, porém, o encantamento e a magia que somente a Poesia é capaz de conservar.


    Boa semana, António.
    (Sim, eu sei que já é quarta-feira.)

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