sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Anos Novos


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No entrar e sair,
Trás o vai-e-vem o vir,
Penetrando em novos anos,
Podem não ser desejos mundanos,
Talvez uma velha esperança de sentir,
A ideia fixa nos novos prazeres humanos,
Depois de mais um velho ano se ir,
E com ele levar seus velhos danos,
Causados por duros dias profanos,
Esses filhos dos meses ansiosos por sentir,
O estreito das semanas que se dispõem a abrir,
Relaxando as pregas de futuros menos tiranos,
Ainda que possuídos por sedutores insanos,
Sempre dispostos a deixarem-se introduzir!...

Há anos que não deixam saudade,
Deixando apenas a trampa dos dias evacuados,
Há fogo das horas vizinhas de descarada vontade,
Gozando cada minuto de saboreada ansiedade,
E outros anos vizinhos meigamente untados,
Por segundos que segundo os safados,
     Permitem entradas com suavidade!...

Ano novo Vida nova,
Tesão de anos melhores,
Por trás são postos à prova,
    Deixando levar atrás anos piores!...
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Passagem...

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Pressinto abrenúncios em teus medos,
Arrebatados pelos agoiros de Satanás,
Esconjuras dos teus possessos segredos,
Com ais de água-benta que o medo te trás,
Rezas ao teu sacro temor para que te vás,
E que logo regresses dos teus degredos,
    A modos que teu medo se faça mordaz!...

Fizeste do teu peito sagrado sacrário,
Onde guardaste pecados escondidos,
Talhados no fogo carnal do teu diário,
Folhas caídas da carne de teu relicário,
Desfolhado sobre os teus temores caídos,
Teu chão de amores virados ao contrário,
    Sangue enclausurado a destempos idos!...

Não viste passar apenas o tempo,
Anos que o vento não te soube mostrar,
Não quiseste ver a brisa daquele momento,
Chamas de velas apagadas por teu tormento,
    Que para sempre te haveriam de iluminar!...

Procuras o tempo perdido,
Na saída do fim de todos os anos,
Mas...
Para mal dos teus enganos,
Quando encontras mais um dia vencido,
Tudo termina no princípio de mais um ano fingido!...
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Votos... de Espuma

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Como foi Natal,
Tempo de hipocrisia e coisa e tal,
Ofereci por aí mãos cheias de nada,
E outras de coisa nenhuma...
Todos sabem que a crise é só uma,
Qualquer coisinha que nos foi rapinada...
Imaginaram-se o melhor espumante
                                                                             e a espuma,
Explosão de um fazer de conta petulante,
Feito de efeitos em feitios de fachada,
Celebrados pela agitação desejada,
Da nossa sede que se esfuma,
Salivando a palavra embriagada,
Na cuspidela que se acostuma,
À boca que a sinceridade desarruma,
No despacho de mais uma Natividade celebrada!...

Já ninguém valoriza a crise de valores,
Na preguiça desta sociedade desumanizada,
    Desvalorizada por quem jamais morrerá de Amores!...
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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Natal...(A)prenda

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Embrulhou a solidariedade,
Numa caixa de promessas florescentes,
Com as lágrimas sujas dos indigentes,
E enfeitou o evento com ventos de vaidade,
Polvilhados de reconhecida notoriedade,
Pela carteira competente;
Faltava o laço!...
Mas esse laço, nó cego de carinho,
 Era a prenda que fora da caixa ria baixinho!...

Quero prata,
Quero ouro e diamantes,
Beleza intacta,
Quero minha mulher e amantes,
Quero preguiça, sorte e admiração,
Escravos, concubinas, exaltação...
Quero o fim acabado no início como dantes,
Regredir na opção,
E gulosar a repetição,
Do sabor do meu poder,
Onde tudo voltará a ser,
A força de  minha razão!...
Então, até deus se prostrará,
Aos pés de tão poderosos eu;
Será eficaz a mensagem,
Para que me seja prestada vassalagem...
E tudo mudará!...
No esquecimento o que prometeu,
Haverá todos os dias um só natal,
E, -pobre infeliz, -não será o teu,
     Mas única e tão somente o meu!...

Há Almas assim!...
Almas tão cheias de nada,
Pesando universos de confusão,
Sobre a vontade da compreensão,
Que muito longe daquela Estrela,
Não trocando a avareza descarada,
Mergulham na vergonha roubada,
Nunca à pobreza estendendo a mão!...
 Há almas assim!...
A tropeçar no Natal indigente,
Pisando o Natal do mundo,
Ignorando o sentimento profundo,
De ser pai de um Jesus diferente,
Sendo igual ao de toda a gente,
A Esperança na imortalidade feliz,
Alimentada bem fundo,
    Por toda uma Alma nutriz!...

Mesmo o hipócrita
                                          refém,
Do egoísmo ausente de dor,
O desejo de um natalício calor,
Será sempre um apelo divino,
Que poderá converter o mal,
Na inocência de um menino,
      Nascido numa Noite de Natal!...

Olhos de luz cruzando a Natividade,
Como que enlaçando desejo e felicidade,
Numa volátil lágrima de cristal,
Talvez diluída na austeridade,
  De um brilho frágil de Natal!...

Ainda se encontra por aí,
Bem à nossa frente,
Um pouco de quem sorri,
No coação de muita gente,
Gente simples, simplesmente,
Tão simples por pouco ter,
Dando tanto gentilmente,
Tão gentis por assim ser,
Embrulhando todo o Amor,
Futuro que irá nascer,
Com a felicidade de ser Mãe,
Não só de seu filho, seu Senhor,
     Mas de todos os filhos também!...

Deus meu,
Ajudai-me a ver,
   Que sentido fazer!...
Guiai-me... um sinal fugaz,
Pelo estábulo à manjedoura,
Onde possa ser eu capaz,
Afagar macio feno abençoado,
O sabor da Esperança duradoura,
   O nascimento do verbo encarnado!...
Da cruz, no cântico, na bondade,
Pela tolerância, a piedade,
Mensageiro de Paz, Amor louvado!...

 Não!...
Não mereço tal privilégio,
Seria um sacrilégio,
Um pretensioso pecado,
De um pecador mil vezes arrependido,
Mil vezes repetido,
Ainda que mil vezes perdoado,
   E outras tantas decalcado!...

Ainda se encontra por aí,
A felicidade de ser Mãe,
Não só do filho, seu Senhor,
Mas de todos os filhos também...
A Esperança da mortalidade feliz,
Alimentando carinhoso Amor,
Por toda uma Alma nutriz,
Volátil lágrima de cristal,
Talvez já diluída no furor,
    De um fraterno brilho de Natal!...
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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Pai natal

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O Inverno pressente-se muito perto...
Partilhemos algum desse nosso  calor,
Pese embora, nos achemos , decerto,
Íntimos arrefecidos deste peito aberto,
Expostos à neve branca de muita dor,
Disfarçada de um vermelho impostor,
Esse quase santo demasiado esperto,
Bonachão dos pais donos de riqueza,
Padrasto por mimo de mães coberto,
Pai natal cheio de negro e frio interior,
Esquecido dos pobres com fria crueza,
Deixando embrulhos vazios à pobreza,
Sonho de todos os dias com fé e fervor,
Inocência colorida de um crer sonhador,
Sincera crença acarinhada com a certeza,
De receber daquele mentiroso senhor,
A única prenda da inocência indefesa,
O simples desejo de receber só Amor!...

Afinal, o diabo desse barbudo muito lindo,
Trás coca-colas cheias de desejos consumados,
Pelo suor dos  verdadeiros Pais que foi consumindo,
Entra no coração aliciado a rir e da tristeza sai rindo,
E tudo que que dá é nada aos pobres coitados!...

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Algures um menino pobrezinho,
Ri embrulhado num calor de felicidade,
Abraçado por Pais felizes cheios de carinho!...
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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Hipocrisia - (Sopinha de Cebola com Lágrimas de Crocodilo)



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Mais do que serem meus Poemas também,
São os Poemas revelações de verdades krystalinas,
Envoltas algumas na conveniência de densas neblinas,
Que escondem as biografias inconvenientes de alguém,
Tão capazes da personagem que mostram, ficar aquém,
Achando que mais vale ser uma ilusão atrás da cortina,
A mostrar-se nada do muito que é ser ninguém!...

É asfixiante a hipocrisia de um Natal decomposto,
Para quem os dias são natais abortados todo ano,
Filhos de iguais natais e de um outro natal germano,
Puros descendentes de si mesmos e seu oposto,
Pais de quem não são e iguais mães sem rosto,
Assexuados hermafroditas de calor ufano,
Escritos na infernal frigidez do desgosto!...

Aqui está mais um mês de Natal,
Dezembro como só ele sabe ser,
Sendo Dezembro imparcial,
De um espaço ancestral,
Onde a luz do anoitecer,
Começa um claro tecer,
De uma fímbria bestial,
Em bestas de fraco suster,
Tão erróneos em seu limite natural,
Tenazmente apegados a um ridículo pascer,
Só ao alcance dos néscios com predestino original,
Apoiados por iguais meios que igualam um parvo literal,
E assim se constrói uma nada de nada no desconjugar do verbo encher!...

Estando com desejo de uma sopinha,
Mas não uma qualquer,
Carla, minha esposa e Mulher,
Sabendo meu gosto por qualquer hipócrita mesquinho,
Comoveu minha vontade pedindo-me com todo o carinho:
-Amor, faz uma sopinha de cebola para esta que tanto te quer!...
Pensando eu nos coitadinhos da vida chorei como um rapazinho,
Lágrimas de cebola, é certo, que eu guardo para dar a quem vier,
Mas venham só os ricos porque, para dar, eu tenho poucochinho,
Sobraram as lágrimas da cebola que com a sopa chorei sozinho,
Guardando, para quem não precisar, delas, o sal numa colher!...

São estas vossas lágrimas sem causa,
Que alimentais com vossa hipócrita solidariedade,
Secando em úteros de vossa hipócrita menopausa,
E do tesão genital que se foi sem dó nem piedade,
Restando o sal das lágrimas de vossa falsidade?!...

Quem dá mais pelo Menino Jesus?...
É dos pés à inocência de ouro maciço,
Prenda para quem aprenda a fazer jus,
De sua viva hipocrisia assinada de cruz;
Não há quem queira dar-lhe o sumiço?...
Bate forte o bater no peito na porta...
                                                               trus trus...
    Apresenta-se o hipócrita para todo o serviço!...

 Há tanto arroz solidário deitado às pombas,
E tanta fome a pagar Natais cheios de bombas!...

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Hipocrisia.(I)

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Dos anos de hipocrisia,
Abeirava-se a luz de antigamente,
Debilmente!...
Tímida luz que há muito não se via,
Ofuscada por electrões em demasia,
Intermitente!...
A fé iluminada por pagã ironia,
Abria-se a mais um Natal de presente,
Escarnecido ironicamente,
Pelo verde do pinheiro que caía...
Da solitude iluminava-se a poesia,
Hipocritamente!...
Uma estrela cadente,
Atravessou uma lágrima que caía,
Luzente!...
Daqueles olhos era Luz que escorria,
Cheios de toda a fé ausente...
Hipocrisia!...
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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Êxtase

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Quando estocada pelo beijo mais forte,
Em seu recatado “G” que só ela conhecia,
Entregava-se àquela dor que não doía,
Sentindo florescer tão plena de sorte,
Da tediante sensação da morte,
Num interminável espasmo que a possuía;
...era como... se... depois do torpor,
De um entorpecido amor,
Fosse possuída por todos os prazeres em plena harmonia...
Desflorada mil vezes pelo desejo da dor...
E gemia...
                       Gemia...
                                            Gemia...
Até ao êxtase numa silenciosa melodia!!...

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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Covardia


Se não houver orgulho que mate,
Esta covardia que nos anda a matar,
Seremos cúmplices deste terrível dislate,
Aqui nos deixamos morrer sem combate,
Enquanto vemos  nossos filhos suplicar,
E tudo que sabemos é definhar,
Neste estado de abate!...

Somos o que dizemos não ser,
Lesmas pálidas coladas aos ossos,
Somos retratos moles dos olhos vossos,
Nos rostos impávidos que fingimos não ver,
E tudo que fazemos é deixarmo-nos morrer,
Abraçados a filhos que já foram nossos!...

Há um brilho intenso,
Esquecido bem no fundo de ti,
Tua Alma é prisioneira do consenso,
Consensual cárcere do teu medo imenso,
Há uma chave de ouro fechada em si,
Que abriu as portas ao contra-senso,
No carcheio de um Judeu que ri!...

Porque tens medo,
De apontar o dedo,
À tua imprópria vida,
Se já a sabes perdida,
Restando o degredo,
De tua honra ferida?!...

Não chores caro tíbio amigo,
São teus filhos que te vão enterrar,
Herdeiros sem força para gritar...
-Acredita na bofetada que te digo-
Poupa-te à visão de um mendigo,
Que por tua covardia ficará a chorar,
Tão triste é saber um filho mendigar,
Preferindo ele ser enterrado contigo,
Por não ter vanglória onde se abrigar!...

Se essa terra sobre teus olhos fechados,
Te deixasse ver o fruto de teu ser tão inerve,
Saberias para o que a covardia serve!...

... e não voltarias a morrer...
Não antes de combater!...
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Rogatória

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Trás contigo,
Um leve travo adocicado,
Não tragas teu mel antigo,
Perdição desse doce castigo,
Tão amargamente castigado,
Pelo beijo que não foi provado,
E entre os lábios ficou perdido!...

Por tudo que não me deves,
Tendo-te por minha dívida tão leve,
Não rogo a quem muito de ti me deve,
E ante teus insistentes pedidos breves,
Finco-me no fazer-me de rogado breve,
Rezando para que não me leves!...

Ardem tuas plumas angelicais,
Na lavra das labaredas rogatórias,
Descaradas línguas de fogo infernais,
Sobrevoando teimosas trajectórias,
Indecisos purgatórios de histórias,
Limbo de tuas súplicas celestiais!...

Consumida levas-te contigo,
Em tuas extintas chamas serviçais,
Desistindo do meu lume que arde comigo!...

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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Arrepio...


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Passou pela unha um olhar cortante,
Insinuou-se ao sabugo com olhar frio,
Deu-lhe a lamber a lâmina deslizante,
E possuiu-o num meigo corte adiante,
Provocando um rente e gélido arrepio,
Na pele de um inciso lábio arrepiante!...

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sábado, 3 de dezembro de 2011

Brinde...

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...Sabe-me bem beber à Amizade,
Saborear um suave travo de afeto,
Apontar um copo alegremente inquieto,
Na direcção de outro copo com a mesma vontade,
Encho o brinde com o melhor da sinceridade,
E bebo à saúde de um saciar completo,
À distância de meio copo discreto,
Que enche a outra metade,
Com sabor de Saudade!...
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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Restauração

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...depois da euforia do fado alegre desumanizado,
Oferecido às mudas vozes do mundo em degradação,
Fecha-se a voz de Portugal num apodrecido caixão,
Que por um Abril coveiro ao país foi emprestado,
Com usurários juros sem margem de perdão,
E lá vem o Povo por políticos crucificado,
Por cada empréstimo mais curvado,
Até já não poder sentir o chão,
Sem saber se vai ser enterrado,
No mesmo lugar do coração,
Deste Povo desorientado!...

Definha a voz traída,
Rendida à ditadura da coerência,
Morreu a restaurada independência,
De todo um orgulho histórico esvaída,
Atraiçoada Alma que foi vendida,
Sem precaução nem advertência,
Deixando que fosse permitida,
A censura à memória colectiva!...

Permitam-me uma lágrima independente,
Não se importem com a página que de nossa História foi arrancada,
Deixem-me comigo mesmo ser todo por mim coerente,
Ainda que a Alma nobre deste Povo e Nação valente,
Tenha sido por vis bestas de Abril profanada,
Pressentindo-se um desalmar iminente!...

Mais páginas cairão,
Do livro onde o sangue há-de escorrer,
Muitas páginas ensanguentadas irão morrer,
Para que um dia seja lavrada no coração,
A restauração do sempre povo no poder,
Grito de independência desta Nação!...

Entretanto...
Neste frio Outono,
Cresce lento um triste manto,
Sobre o lamento de um lento canto,
Abrigado na tua voz sem dono!...

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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Trapos...


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Velhas...
Muito envelhecidas por tanta cultura,
Palavras à condição sob tortura...
Velhas...
Sombras de palavras com muita ternura,
Luz emanada de seu viçoso epicentro,
Carne viçosa dos jovens corpos velhacos,
Muito jovens por fora de seus interiores fracos...
Velhas...
Por dentro,
Onde se rasga um coração de trapos,
Resto que de resto se mistura,
Com a graxa que tece desejos opacos,
Brilhando por fora...
Velhas...
Jovens palavras de outrora,
Tecidos intactos os cacos,
Partidos na chegada do medo da hora,
Que se vai rasgando na demora...
Velhas...
Pesadas nos estilos antigos da figura,
Figura de estilo na metáfora de quem atura,
O declínio da sapiência,
O saber das palavras de boa aparência...
Velhas...
Com amargura,
No atrito do discurso em decadência,
O amargo sabor da velha doçura,
O regresso revoltado à inocência,
De difusos vultos...
Velhas...
Palavras vestidas com andrajos consternados,
Farrapos caídos do tecido dos corpos cultos,
Tenros corações que restam...
                                                                       esfarrapados!...

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domingo, 27 de novembro de 2011

Que se Fado... (2ª farpada)


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Dai-lhe sardinha,
Ao fado,
Mal assada e gordinha,
Dai-lhe broa de milho quentinha,
Ao pobre vadio mal cantado,
Dai-lhe um velho tinto alienado,
E a voz do povo que ele tinha,
Antes de lha terem roubado!...

Devolvam-lhe a dignidade,
Ao fado,
Cantem a Alma do desalmado,
Sem essa produzida falsidade,
Ao silêncio do fadista calado,
Devolvam-lhe a sua humildade,
De cantar as lágrimas do pecado,
Com a voz de quem foi roubado,
Pelo capital da falsa saudade!...

De que raio é este fado feito,
Cantado por ricas divas sem voz,
Se quando cantam ao pé de nós,
Fazem-no sem qualquer respeito,
Pensando apenas no proveito,
Que a herança de seus avós,
Lhes legou sem haver direito?!...

Se a Alma se canta por legado,
Fazendo de conta que o riso chora,
Então está mais do que na hora,
De acabar com este atentado,
Ao fado,
Tirar o pio ao choro mal chorado,
E tocar a guitarra onde ele mora,
Desabrigo de quem geme lá fora,
O Destino que lhe foi roubado!...

Se só os ricos protegidos chegam ao coliseu,
Pagos a preço d’ouro pelo fado que não é seu,
E o sofrimento de um Povo não é declarado,
Por ser um popular sentimento disfarçado,
Então vos canto eu:
-Que se foda essa treta do vosso fado!...
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Algures... virtualmente

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Algures entre o universo virtual,
E os descalabros do vosso inconsciente,
São paridas humilhações enerves em ritual,
Fecundadas no caos cego de um vazio abismal,
Ansiosos por espalhar veneno de perdida semente,
Na plácida luz extinguida de um sofisma vidente,
Tecendo ramos no plexo sanguíneo do desejo carnal,
Em transfusão muda de um eco deprimente!...

Algures entre o universo virtual,
E os diversos paraísos que vós desejais,
Apaga-se Alma lúcida na dor do sentimento,
Esperança desalmada nos vícios do tormento,
Por desconhecerdes o vosso misterioso final,
No melhor de vós guardado em mistério igual,
Corações desterrados em vossos medos capitais,
Apostando toda a carne fraca nos desejos carnais,
Em riscos de morte indigna por uma réstia vital,
Salva na miserável vida escondida que vós levais,
Como se o tão fingido orgasmo social do momento,
Fosse fatal salvação de vosso traído pensamento,
Traição culpada em inocência de disfarce fatal,
Esquecendo de esconder um denunciado sinal,
Sinal esse que na massa da vergonha é fermento,
Fodendo o pão seco de conquistados comensais,
Ávidos por violações sobre purgados corporais,
Porque o prazer é leite de cabra sem moral,
Com borbulhas de cuninlingus menstruais,
Em engates de desencontros casuais!...

Algures entre o universo virtual,
E os desejos indecifráveis de vosso corpo,
Açoitado por descontrolados vícios do mal,
Serpenteiam viscosas bifurcações doentias,
Emprenhadas por ignóbeis pregões de porcarias,
Espreitando da álula lânguida do desejo mais porco,
Para lamber o gozo soez de um amor já morto,
Na perdição das mais desesperadas fantasias!...

Algures entre o universo virtual,
E a realidade amariçada da covardia,
Esconde-se uma verdade animal que porfia,
Disfarçando um engonço de coragem digital,
Despido daquele movimento de virtude natural,
Que troca pómulos rosados por esquálida alegoria,
Retórica de vagidos em tua maturidade bestial,
Abortado merecimento de desengonçada harmonia,
Caído da troca obscura da noite por tisnado dia,
Perdendo-se o significado no crepúsculo literal,
Do Amor que escureceu numa morte matinal!...

Algures entre o universo Real,
E a mentira de vossa fingida dor,
Dá-se o aval a um sentimento virtual,
Mais forte do que o Amor!...

Será esta a realidade procurada no prazer a esmo,
Desvirtuando o Amor no defeito reprimido de si mesmo?!...

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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Polissonografia

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Eléctrodos para lá do cérebro desperto,
Uma teia perfeita no princípio de terminais,
Ciência confidente de inconfidentes sinais,
Suspeita de um complexo futuro incerto,
Sem segredos e de certezas tão perto,
Na incerteza dos diagnósticos fatais!...

Quatro paredes de um branco frio,
Não tão frio no frio branco de uma cor sem cor,
Há no ar Almas orgulhosas conformadas com sua perda de brio,
Desoladas descolorações etéreas descrentes no sal com sabor,
Há uma cor fria que preenche o paladar com um doce vazio,
Pressentem-se correntes de sal a desaguar naquele rio,
Das quatro paredes brancas escorre um branco rigor,
Não tão branco quanto seria de supor!...

A cor tecnica dos olhos é de um verde esperançado,
O Branco é branco particular do aposento,
Já foi público de um público mais cinzento,
A cor de cada eléctrodo tem um fim determinado,
A cor dá cor à tradução de um significado,
Há um secar rápido do tempo,
Em cada terminal fixado,
E deito-me sonolento!...

As camas só dormem enquanto não as acordamos,
São como um colo materno que nos tem com ternura,
Quando se desliga a luz a escuridão é pijama da brancura,
Que nos veste o desejo de sono com que no dia sonhamos,
Cedo se descobre que no rosto da noite tardará a candura,
Essa mesma inocência que na nossa inocência desejamos,
Mas a cama range os dentes por cada volta que damos,
E sentimos nosso sono enredado numa teia de tortura,
Ao qual o sonho dá tréguas enquanto ressonamos,
Despertando os gráficos claros de nossa agrura,
Vigiados por olhos sonolentos de verdes anos!...


Depois de voltas sobre o ranger da cama,
Entre as voltas que me adormeciam a ideia,
A noite não foi palco de qualquer drama,
Nem os eléctrodos revelaram apnéia,
 E lá regresso com uma nova chama,
Vencida que foi mais uma odisseia!...

A meu lado continuarei a ouvir minha esposa dizer:
-Assim não pode ser!!!!!!!...
E adormeço...
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domingo, 20 de novembro de 2011

Ressonar


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Dizem que sou uma zundape de 60 e tal,
Com um cano de escape escancarado,
Que ressono para onde estiver virado,
Mas, será que alguém me pode levar a mal,
Por minha opinião não poder ser mais desigual,
Quando afirmo a certeza de não ter ressonado?!...

Como é possível não ser possível dormir ao pé de mim,
E até juram que quando eu adormeço é só para os acordar,
Vão mais longe e afirmam que nem em sonhos irão concordar,
Comigo... só porque durmo uma santa noite até ao fim,
Ainda não entendi porque tanto bocejam eles assim,
E insistem nessa teoria sonolenta de conspirar,
Se eu tão perto de mim não me ouço ressonar?!!...

Não há ninguém,
Mais perto de mim do que eu,
Meu sono dorme comigo também,
Sou dele e quando me embala é meu,
Não esse embalo nos braços de Morfeu,
Que é sonho acordado de alguém!...

Só estranho esta sensação,
Quando estou muito perto de adormecer,
Sobressalta-me um rápido ronco de estremecer,
Que quase me desperta e leva a respiração!!!!...
Estremunhado procuro a causa dessa razão,
Procuro na cama culpados para me esclarecer,
Mas em vão...
A meu lado ainda ouço minha esposa dizer:
-Assim não pode ser!!!!!!...

E adormeço!...

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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Que se fado...


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Que se... fado,
Esse vosso sentimento viciado,
Que anda a enganar no estrangeiro,
Tristes espectáculos a troco de dinheiro,
Uma dor fingida que é engano desalmado,
De um Português sentimento degenerado!...

Do canto da Alma Portuguesa,
Ao contrafeito fado mercenário,
Vai o capitalismo revolucionário,
Ajustando cordas com esperteza,
Àquela voz mimada na nobreza,
Mas não à voz do povo solitário,
Que é fado de um fado solidário!...

Se foi este o destino traçado,
Da Saudade que nos vai no peito,
Então, com todo o merecido respeito,
Que se foda esse vosso fado!...

Uma fadista só no palco,
É estrela em pó-de-talco,
Boca de língua sem aval,
Fado decalcado lá do alto,
 Saudade tão sentimental,
Que deixa em sobressalto,
A Alma deste Portugal!...

Anda o fado nas bocas finas do caviar,
Como se a voz do povo se tivesse finado,
Só as doutoras estão autorizadas a cantar,
Acompanhadas por guitarras de falso pesar,
Se a Saudade já é um sentimento vigarizado,
Então, que se foda a alegria do triste fado!...
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